domingo, 8 de maio de 2016

As flores da estação

Cheguei em casa com a minha mala... As roupas espalhadas pelo sofá, outras no varal móvel no meu apartamentinho de 60 metros quadrados: respirei feliz e aliviada de chegar num lugar provisoriamente tão meu.
O final de semana tinha sido especial. Sevilha, que geralmente tem uma cor especial, nos recebeu com chuva, o que não roubava em nada o seu encanto, mas ás vezes sim o meu humor (odeio andar na chuva)! Fui para reencontrar as minhas amigas internacionais. Tanto tempo morando fora que fico meio sem saber o que é internacional, mas as minhas amigas internacionais (autodenominadas gatinhas), são minhas amigas anglo-saxãs que conheci num intercâmbio de idiomas e cujos encontros são um verdadeiro prazer, sobretudo quando eu entendo as piadas, rs! Sou a única lusófona, e por mais que minhas amigas digam que não, meu inglês ainda é sofrível!
Depois de me permitir uma boa escapada do que nós sobrepesos chamamos reeducação alimentar, busquei o que tinha no armário da cozinha. Por muito chef que eu quisesse ser, pouco se podia fazer com macarrão integral, atum e orégano. Para compensar a pobreza do almoço, me proporcionei um duplo prazer, o aroma e o sabor de um cafezinho feito na minha humilde cafeteirinha italiana. Por um mundo com menos cafés em cápsulas!
Aprendi, com uma grande amiga, que quem gosta de provar os sabores dos diferentes sabores dos alimentos e pratos, gosta também dos sabores da vida... E são tantos.
A viagem a Sevilha me permitiu muitos deles... O sabor leve da cerveja do sul da Espanha. O sabor doce das amizades que faço pelo mundo. O gosto tão espanhol de tomar sangria com as gatinhas. A alegria de deixar pra trás o sabor amargo dos amores imperfeitos. A beleza de reconhecer a doçura na imperfeição destes mesmos amores.
Assim que comecei a minha viagem em direção a Sevilha percebi que algo tinha mudado em mim depois da minha última viagem... Entendi que seguiria meus dias sentindo muita saudade de quem me mostrou que é muito bom ser dois, e ao mesmo tempo matando a saudade de uma boa e velha companheira: essa mulher que eu me tornei com todos os sonhos de menina do mundo! 
Resolvi fazer um acordo comigo mesma. Fiz um exercício mental de colocar dentro de uma caixinha bem linda todas as recordações que me acompanham: dos beijos apaixonados, das mãos dadas, dos passeios com um cachorrinho do qual eu também tenho saudade, das conversas diárias, das conversas francas sobre um futuro incomum, dos capítulos de friends e de todas as vezes que até o nosso silêncio dizia: “me encantas”.
Eu vou olhar essa caixinha todas as vezes que eu sentir saudade. Tal qual Neruda “me tiembla la boca su temblor delicado, saudade”

E vou seguir os meus passos, e vou seguir com meus versos, até o dia que seja até prazeroso o exercício de abrir e fechar essa caixinha, que fez de mim uma Nathália ainda mais capaz de amar... Sim, saudade...