Cheguei em casa com a minha
mala... As roupas espalhadas pelo sofá, outras no varal móvel no meu
apartamentinho de 60 metros quadrados: respirei feliz e aliviada de chegar num
lugar provisoriamente tão meu.
O final de semana tinha sido especial.
Sevilha, que geralmente tem uma cor especial, nos recebeu com chuva, o que não roubava em
nada o seu encanto, mas ás vezes sim o meu humor (odeio andar na chuva)! Fui
para reencontrar as minhas amigas internacionais. Tanto tempo morando fora que fico
meio sem saber o que é internacional, mas as minhas amigas internacionais
(autodenominadas gatinhas), são minhas amigas anglo-saxãs que conheci num
intercâmbio de idiomas e cujos encontros são um verdadeiro prazer, sobretudo quando
eu entendo as piadas, rs! Sou a única lusófona, e por mais que minhas amigas
digam que não, meu inglês ainda é sofrível!
Depois de me permitir uma boa
escapada do que nós sobrepesos chamamos reeducação alimentar, busquei o que
tinha no armário da cozinha. Por muito chef que eu quisesse ser, pouco se podia
fazer com macarrão integral, atum e orégano. Para compensar a pobreza do
almoço, me proporcionei um duplo prazer, o aroma e o sabor de um cafezinho feito
na minha humilde cafeteirinha italiana. Por um mundo com menos cafés em
cápsulas!
Aprendi, com uma grande amiga,
que quem gosta de provar os sabores dos diferentes sabores dos alimentos e pratos,
gosta também dos sabores da vida... E são tantos.
A viagem a Sevilha me permitiu
muitos deles... O sabor leve da cerveja do sul da Espanha. O sabor doce das
amizades que faço pelo mundo. O gosto tão espanhol de tomar sangria com as
gatinhas. A alegria de deixar pra trás o sabor amargo dos amores imperfeitos. A
beleza de reconhecer a doçura na imperfeição destes mesmos amores.
Assim que comecei a minha viagem
em direção a Sevilha percebi que algo tinha mudado em mim depois da minha
última viagem... Entendi que seguiria meus dias sentindo muita saudade de quem
me mostrou que é muito bom ser dois, e ao mesmo tempo matando a saudade de uma
boa e velha companheira: essa mulher que eu me tornei com todos os sonhos de
menina do mundo!
Resolvi fazer um acordo comigo mesma. Fiz um exercício mental
de colocar dentro de uma caixinha bem linda todas as recordações que me
acompanham: dos beijos apaixonados, das mãos dadas, dos passeios com um
cachorrinho do qual eu também tenho saudade, das conversas diárias, das
conversas francas sobre um futuro incomum, dos capítulos de friends e de todas as vezes que até o
nosso silêncio dizia: “me encantas”.
Eu vou olhar essa caixinha todas
as vezes que eu sentir saudade. Tal qual Neruda “me tiembla la boca su temblor
delicado, saudade”
E vou seguir os meus passos, e
vou seguir com meus versos, até o dia que seja até prazeroso o exercício de
abrir e fechar essa caixinha, que fez de mim uma Nathália ainda mais capaz de
amar... Sim, saudade...





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